segunda-feira, 28 de maio de 2007

A música

Um dia nasceu a música. Começou por soluçar na minha voz, numa letra meramente decorada, num som sentido que me fazia gritá-lo. Lembro-me perfeitamente daqueles momentos, dos meus primeiros anos de vida, quando a minha casa era praticamente um hospital. Semanalmente eu estaria lá, quase como em visita áquele estabelecimento. Antes fosse. Lembro-me perfeitamente do nome, que médicos, enfermeiros e outros profissionais que acompanharam a minha saúde me puseram: a "asmática alegre". No meio da falta de ar, provocada pela asma e a bronquite, eu cantava demasiado forte, para quem mal conseguia respirar. Os meus pais, envergonhados, mandavam-me calar, mas quase sempre, não tinham lá muita sorte com o pedido que me faziam. E os "senhores doutores", que se aproximavam às gargalhadas, apenas diziam para cantar mais baixinho, porque naquela sala, estavam mais meninos, que pelo contrário, não tinham vontade de cantar, e muito menos, de ouvirem cantar. Contam-me que, furiosa, mandava-os calar. Era absolutamente refilona. Recordo-me ainda da minha pequenez, quando subia o segundo ou o terceiro degrau da escadaria interna, lá de casa, e cantava as músicas que, na altura, eram as minhas preferidas. Com uma banana ou outro objecto a servir de microfone, eu soletrava cantando, qualquer coisinha. De vez em quando tinha um aplauso, e ainda muito de vez em quando, ouvia algumas vozes que me acompanhavam. Baixinho, um pouco baixinho. Faltava a musicalidade, mas bem ou mal, eu fazia-o com frequência. E quando a letra me escapava, descia aqueles degraus, um pouco a correr, e pedia ajuda à pessoa que estivesse mais próxima. E muito atrapalhada,voltava para lá, novamente, como se estivessem muitas pessoas à minha espera, à espera de uma "artista" que se tinha esquecido da letra. Era muito engraçado, confesso.
Foi então, que a música entrou na minha vida de uma outra forma. "O primeiro passo". Com medo, muito medo eu ia aprender, finalmente, o significado da música, o que era fazer música. O sentimento era bem mais forte, quando aquele mero degrau se tornava num palco, com olhares de pessoas, flashes que saíam de máquinas um pouco perturbadores, filmes que estariam a ser gravados, e aquela dorzinha de barriga que surge quando estamos nervosos. Num toque sublime, a música escapava-me pelos dedos, em teclas brancas ou negras, e ia conseguindo concretizar, aquilo que antes era só um desejo. Eu ia crescendo e o gosto pela música também me acompanhava. O sonho permanecia, sempre permaneceu. Não queria ser um grande músico, e muito menos, um músico conhecido. Apenas queria saber.
Hoje, posso dizer que trago a música dentro de mim, que já a conheci, e que, de vez em quando, ainda faço parte dela. A música é um dos meus vícios, não passo sem ela. Na voz, no orgão, na flauta de bísel, no piano, na flauta transversal, na dança, e mais recentemente na guitarra, a música faz parte da minha história de vida. Nunca lhe serei indiferente.

"Vi um menino, com um piano,
No céu da minha cabeça,
Veio de tão longe, só para me pedir,
Que nunca o esqueça.
Vinha tocar o seu piano,
Como só nos sonhos pode ser,
Por entre as nuvens e as estrelas,
Apareceu, quando me viu, adormecer.
Ficou sentado, perto de mim,
Onde mora a fantasia,
Quis-lhe tocar, mas nao se pode ter,
A noite a iluminar o dia.
Soprou devagarinho, uma estrela,
Que se acendeu na sua mão,
Disse-me:"podes sempre vê-la",
Se souberes soprá-la no teu, coração.
Vi um menino, com um piano,
A despedir-se de mim,
Como uma nuvem, fez o mar e partiu,
Nos sonhos pode ser assim.
Disse-me:"está a nascer o dia",
Vou p'ra onde a noite se esconder,
Volto com a primeira estrela,
Para tu nunca teres medo, ao escurecer."
Mafalda Veiga

2 comentários:

Ana Pinho disse...

Ui música... o q seria eu sem ela?

Minha companheira de todas as horas, de todos os momentos! Tão importante na minha vida que já cheguei a denominá-la como melhor amiga. Estupidez? Talvez...


Um beijo andreia,
minha futura companheira musical! (vai ser cá um dueto :P)

Anónimo disse...

Estou a ver que já em pequenina eras um exemplo. Aqui está a prova de tudo aquilo que sempre digo a uma certa pessoa: é preciso ver em tudo um lado positivo.
A música toca todas as pessoas, de um forma ou de outra e é bom saber que a ti te tocou assim.

Beijos.

P.S.: Eu estou ansiosa para ver esse dueto.